Por: Vitor Valeri
Fone de ouvido in-ear personalizado/moldado ou CIEM (Custom In-Ear Monitor) chamado JH Audio JH5 Pro (Imagem: Vitor Valeri/Hi-Fi Hub)
Os Custom In-ear Monitors (CIEMs), popularmente conhecidos como fones in-ear personalizados ou moldado, são utilizados no meio profissional por músicos e técnicos de áudio em palcos de shows e estúdios de gravação de música, locução, podcasts e trilhas. Os principais motivos que levam as pessoas a comprá-los são: qualidade de som, conforto e isolamento. Neste artigo eu explico sobre o que são eles e para quem vale a pena.
Um in-ear personalizado/moldado ou CIEM (Custom In-Ear Monitor) é um fone de ouvido do tipo intra-auricular que possui o corpo no formato do ouvido do usuário. O material da carcaça pode ser feito em resina ou fibra. Dentro da concha geralmente são encontrados componentes comuns a fones de ouvido do tipo in-ear como drivers (alto-falantes), crossovers, fios, tubos e filtros. Mais a frente explico melhor sobre cada um deles.

O fone de ouvido do tipo intra-auricular, tambem chamado de in-ear ou IEM (in-ear monitor), é aquele que o usuário encaixa na orelha (ouvido externo) através do uso de ear tips, popularmente chamadas de “ponteiras” ou “borrachinhas”.
Conforme eu explico no artigo “o que influencia no conforto de fones in-ear”, os fones do tipo in-ear são fixados na orelha utilizando o canal auditivo (meato acústico externo) e a concha do ouvido externo. Abaixo uma imagem ilustrativa de um fone intra-auricular universal.

Fones in-ear universais são aqueles que não são personalizados/moldados para obter o formato exato do ouvido do usuário.
Recomendação de artigo para leitura: O que são ear tips? Como ponteiras transformam sua experiência com fones in-ear (IEMs)
Para ser possível obter um fone in-ear personalizado/moldado ou CIEM (Custom In-Ear Monitor), é necessário fazer moldes do formato do canal auditivo (meato acústico externo) e concha da orelha do usuário. Algo interessante que notei quando fiz este processo é que os lados direito e esquerdo do meu ouvido tem formatos diferentes.

Para fazer o molde, é necessário que um profissional habilitado (fonoaudiólogo ou otorrino) realize o procedimento conforme manda o protocolo. Confira as etapas:
Primeira etapa: análise clínica do ouvido do paciente, utilizando um otoscópio, para averiguar se há alguma inflamação, infecção ou excesso de sujeira.

Segunda etapa: inserção de uma espuma com um fio próximo ao tímpano para evitar que o material utilizado para o molde não entre em contato. O fio serve para facilitar puxar o molde para fora do ouvido.


Terceira etapa: o paciente deverá morder um bloco isopor com dimensões específicas (cerca de 3cm de espessura) para manter a boca aberta na distância correta. Isso irá impedir que, quando o fone estiver pronto, você perca o selo do canal auditivo ao movimentar a boca cantando, por exemplo. Alternativamente, você pode usar dois dedos no lugar do bloco.


Quarta etapa: o profissional habilitado irá misturar dois tipos de silicone macio de grau médico que, ao serem unidos, endurecem após alguns minutos. Essa massa é inserida em uma seringa e injetada no canal auditivo (meato acústico externo) e concha do ouvido externo do paciente.


Quinta etapa: após alguns minutos, o silicone injetado estará duro e o profissional habilitado irá retirar o molde do ouvido do paciente.

Sexta etapa: o molde é enviado para a empresa responsável pela fabricação do fone de ouvido in-ear personalizado/moldado (CIEM).

Sétima etapa: é utilizado o escaneamento 3D para obter uma cópia digital do formato do canal auditivo e concha para criar o fone. Há também um método tradicional e mais antigo para obter a impressão do ouvido a partir do molde, que é a aplicação de ágar ou silicone.


Oitava etapa: é feita a impressão 3D, ou injeção do material em um molde, para criar a corpo/carcaça do fone, caso ela seja feita em resina.

Se for utilizado fibra, é necessário utilizar CNC para realizar cortes precisos e literalmente esculpir o corpo. No vídeo abaixo você confere como é o processo.
Nona etapa: com a ajuda da ferramenta micro retifica, lixas e outros materiais, é feito o acabamento do corpo do fone para depois inserir os componentes internos para ao final “tampar” com a faceplate (parte que é exibida externamente ao encaixar o fone no ouvido).

Dentro de um fone in-ear personalizado/moldado ou CIEM (Custom In-ear Monitor) há drivers (alto-falantes), crossovers, fios, tubos e filtros (dampers). Há designs que podem fugir disso, mas essa é a configuração mais comum.

Os drivers (alto-falantes) são responsáveis por reproduzir as frequências do som e pode haver um ou mais dentro dos fones in-ear personalizados/moldados (CIEMs). Para dividir as frequências que cada um deles irá trabalhar, são utilizados crossovers, que utilizam resistores, capacitores e indutores para dividir a transmissão do sinal para diferentes alto-falantes. O crossover é ligado a cada driver por meio de pequenos fios.
Quando o fone só utiliza um driver, chamamos de “single driver full range” (driver único de resposta de frequencia cheia), pois há um alto-falante por lado que será responsável por reproduzir todas as frequências do espectro do som audível pelo ser humano (20 Hz a 20 kHz).
Aqueles modelos de fones que utilizam mais de um driver são chamamos de “multi driver”, pois há diversos alto-falantes, que serão responsáveis por reproduzir somente uma faixa de frequencia do som. Atualmente, são utilizados drivers de diversas tecnologias, mas o mais comum de se encontrar são as BAs (balanced armatures ou armaduras balanceadas).

Nos casos em que o fone utiliza mais de uma tecnologia de driver, ele é classificado como “híbrido”. Além das BAs, atualmente as tecnologias mais utilizadas em in-ears personalizados/moldados (CIEMs) são:
• Driver de condução óssea (bone conductor driver)
• Driver Dinâmico (DD)
• Driver Eletrostático (EST)
• Driver Planar Magnético
Para “guiar” o som dos drivers, são utilizados tubos de silicone e/ou metal, que vão até o bocal (nozzle) do fone. Dentro de cada tubo pode ser utilizado, caso necessário, um filtro, que permite o ajuste do som atenuando certas frequências, de desejado pela fabricante do CIEM.

É importante saber posicionar cada driver, pois o comportamento os graves, médios e agudos se comportam de forma diferente. Os graves precisam de uma distância maior para se “desenvolver” enquanto os agudos não necessitam de muito para serem reproduzidos corretamente.
Os fones de ouvido in-ear personalizado/moldado ou CIEM (Custom In-ear Monitor) podem valer a pena para aqueles que buscam um alto nível de conforto e um isolamento extremo dos ruídos externos. É o caso de músicos no palco de shows e pilotos de Fórmula 1, que estão expostos níveis de pressão sonora (SPL) durante longos períodos que estão acima do recomendado pelo anexo 1 da NR15.
Um CIEM é capaz de atenuar, em média, até -25dB sem reproduzir sons, podendo atenuar ainda mais quando está reproduzindo algum som. Desta forma, o usuário do Custom In-Ear Monitor não precisa aumentar muito o volume para ouvir de forma nítida.
Devido à qualidade de som proporcionada pelos in-ear personalizados/moldados, os in-ear personalizados/moldados podem ser úteis também para o monitoramento em estúdios de gravação como forma de complemento das caixas monitor, tradicionalmente utilizadas pelos técnicos de áudio.
A experiência que eu tive ao adquirir e usar um fone in-ear personalizado/moldado (CIEM) foi como se a minha vida tivesse trilha sonora. Minha percepção depois de colocar o meu CIEM nos ouvidos foi de que eles não existiam mais e de que o ambiente onde eu estava deixou de ter sons, restando só a música. Esse é o resultado do isolamento e conforto extremos que só pude conseguir com in-ear moldado.
Claro, além das qualidades mencionadas acima, o nível de detalhamento dos sons e do palco sonoro costuma ser acima da média se comparado a fones in-ear universais. Lembrando que isso não é uma regra, pois existem diversos modelos de intra-auriculares e as pessoas possuem gostos diferentes por sonoridades especificas.
A parte mais “chata” de utilizar um CIEM para mim é limpar todo o corpo dele toda vez que eu termino de utilizar, para remover a oleosidade que fica no fone. Porém, ainda assim é uma experiência tão diferente que faz valer a pena.
O preço cobrado por um in-ear personalizado/moldado (CIEM) pode variar muito, podendo ir, por exemplo, de US$ 99 (Exemplo: Avara Custom AV1) a US$ 8.000 (Exemplo: Unique Melody Mason Asahi). Porém, note que já é possível obter uma excelente qualidade sonora com modelos mais baratos, sendo ideal tentar experimentar as versões de demonstração para fazer uma escolha melhor.
Caso não saiba, os modelos de demonstração possuem ear tips (“ponteiras”, “borrachinhas”), permitindo que você tenha ideia do “sabor” do som do fone.
No Brasil, as principais empresas que fabricam fones in-ear personalizados/moldados (CIEMs) são:
• Audio Dream
• Audiocare (responsável por vender CIEMs da Westone)
• Ear Sound
• Xtreme Ears
Sim, há opções de fone in-ear personalizado/moldado (CIEM) que podem ser ainda melhores para se comprar no exterior. Porém, tenha em mente de que será necessário enviar o molde do seu ouvido pelos Correios, gastar com o envio do fone de volta para o Brasil e também pagar impostos.
Confira abaixo a lista das principais empresas que fabricam fones in-ear personalizados/moldados (CIEMs) no exterior.
• 64 Audio
• Advanced Acousticwerkes (AAW)
• Avara Custom
• Earsonics
• Empire Ears
• Fit Ear
• JH Audio
• Jomo Audio
• Noble Audio
• Oriolus
• QDC Custom IEM
• Ultimate Ears
• Unique Melody
• Vision Ears
• Westone
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