Por: Vitor Valeri
Os DAPs (Digital Audio Players) com o sistema operacional (SO) Android se popularizaram, mas sempre foram lançados com chipsets antigos e versões mais antigas do sistema operacional do Google para smartphones. Há diversos motivos para isso, mas o principal deles é o custo de desenvolvimento e otimização para o dispositivo utilizado por um público nichado muito pequeno, mas exigente para com a qualidade de áudio e a experiência com a música.
Os Digital Audio Players com Android se popularizaram graças aos serviços de streaming de música. O crescimento da utilização desta modalidade de reprodução de música pode ser conferido através do gráfico criado em setembro de 2022 por James Eagle do site EEAGLI, que utilizou como fonte de informações o RIIA (Recording Industry Association of America), o Billboard 200, o IFPI (International Federation of the Phonographic Industry) e o ARIA (Australian Record Industry Association).
Uma das primeiras empresas a apostar neste formato de reprodutor de música com o sistema operacional do Google criado para smartphones foi a FiiO, uma fabricante chinesa de equipamentos de áudio fundada em 2007. Com o passar dos anos, outras companhias entraram neste mercado de DAPs Android como, por exemplo, a iBasso, a Hiby, a Shanling e a Sony, com sua linha de players Walkman.
O diferencial de um DAP é seu hardware e software desenvolvido para reproduzir músicas com alta fidelidade, sem interferências. Entretanto, para tornar viável a comercialização, há a necessidade de equilibrar os custos, além de manter o foco do dispositivo na melhor experiência com áudio possível.
O ápice desse equilíbrio foi atingido com os SoCs (System-on-a-Chip) Snapdragon 660 e Snapdragon 665, que podem ser encontrados facilmente em Digital Audio Players da FiiO, da Hiby, da Shanling, da iBasso e da Cayin. É possível entender melhor o que isso significa após ler o que foi dito pelo fundador e CEO da FiiO, James Chung.
Em uma publicação de agosto de 2025 na rede social chinesa weibo, Chung explicou sobre a ciclo de desenvolvimento do software para o SoC utilizado nos DAPs de sua empresa.
“Na indústria de players, já se passaram vários anos desde a aplicação do Qualcomm 660, e nenhum SOC melhor foi aplicado a players portáteis. Essa é uma razão importante, pois o mercado de players está encolhendo, e quanto maior o desempenho do novo SOC, maior será o investimento necessário em P&D.”
Para se ter uma ideia da dimensão do investimento exigido ao adotar um novo SoC em DAPs Android, Chung explicou em agosto de 2025 no weibo sobre o custo de desenvolvimento, que geralmente é reaproveitado em vários modelos para diluir os gastos.
“Sem contar os engenheiros de hardware, foram cinco engenheiros de software trabalhando por dois anos. Cada engenheiro de software Android custa mais de 300 mil yuans por ano (US$ 41.781 na conversão direta). Ou seja, só em mão de obra, o gasto foi de cerca de 3 milhões de yuans (US$ 417.812 na conversão direta).
Além disso, mesmo após o lançamento, ainda é necessário manter a equipe para corrigir problemas e adicionar recursos. Do ponto de vista econômico, a troca do processador tem um custo muito alto — e é por isso que a maioria das marcas mantém o mesmo chip por muitos anos.”
Como se não bastasse, ainda há a dificuldade em adquirir um SoC da Qualcomm, pois pequenas empresas não conseguem comprar diretamente da fabricante. Este é justamente o cenário das fabricantes de DAPs, que tem um consumo muito menor que empresas focadas na venda de celulares.
Para conseguir comprar um processador da Qualcomm, Chung explica que é necessário comprar de terceiros módulos que “já vêm com o processador, memória RAM e flash, chip de gerenciamento de energia e outros componentes comuns, além de um firmware SDK pronto para uso”. O fundador da FiiO acrescenta dizendo:
“A FiiO, ao receber o módulo e o pacote de software, solicita ao fabricante a liberação do código-fonte de certas funções para adaptá-lo às suas necessidades. Algumas funções não temos permissão de acessar — aí o fabricante do módulo precisa implementar para nós.”
Para um DAP Android, atualizar o sistema operacional Android significa “um grande investimento”, diz Chung, que explica o motivo falando:
“Os players portáteis não precisam apenas se adaptar a alguns hardwares, mas também precisam modificar o sistema Android no nível do sistema para contornar o SRC e suportar formatos de áudio de alta taxa de amostragem (sample rate).”
Um dos principais diferenciais de um Digital Audio Player comparado a um smartphone, além do hardware voltado para áudio, com menor interferência e maior potência de saída, é a capacidade de driblar o SRC (Sample Rate Conversion) aplicado pelas APIs de áudio do Android, OpenSL ES (Open Sound Library for Embedded Systems) e AAudio.
As APIs OpenSL ES e AAudio basicamente são utilizadas para processar o áudio no Android com baixa latência e alta performance. O SRC é utilizado para padronizar o áudio transmitido pelo sistema operacional com o objetivo de diminuir o uso da CPU, melhorar a latência na transmissão do audio e economizar bateria.
O SRC faz o resampling (redimensionamento), que converte todos os arquivos de áudio para a taxa de amostragem de 48 kHz. Ao plugar um fone de ouvido na saída 3,5mm ou 4,4mm de um DAP, não há alteração da “sample rate” das músicas. Isso também pode ser evitado ao conectar um DAC via cabo OTG em um celular e utilizar um aplicativo que permita o acesso exclusivo do áudio pelo dispositivo externo conectado.
Exemplo de aplicativos que suportam o acesso exclusivo do áudio ao conectar um DAC via USB:
• FiiO Music
• Hiby Music
• Tidal
• USB Audio Player Pro
Segundo Chung, quando um Digital Audio Player tem o sistema operacional atualizado, a empresa tem que otimizar seus aplicativos de reprodução de música para aquela versão do Android.
“Atualizar para uma versão mais recente do sistema Android também significa que muitos aplicativos precisam ser adaptados para corrigir alguns erros ou problemas de compatibilidade.”
Ele complementa dizendo:
“Atualmente, um sistema Android aberto suporta praticamente aplicativos ilimitados, até mesmo aplicativos de streaming de música, que são mais de centenas. Embora esses aplicativos sejam essencialmente semelhantes, ainda existem diferenças significativas, então há uma grande possibilidade de encontrar alguns problemas de uso devido a novos controladores e sistemas, que precisam ser corrigidos e otimizados por meio de atualizações de sistema.”
A execução de aplicativos do Google, que vem por padrão em dispositivos Android, e de serviços/recursos do Android (exemplo: bem-estar digital e controle da família, Google Assistente, segurança e emergência etc.) afetam o desempenho de um DAP, pois consome recursos (exemplo: memória RAM, CPU, leitura/escrita de dados).
Pensando nisso, alguns fabricantes de Digital Audio Player alteram o sistema operacional, otimizando de forma a restringir ao máximo o uso de apps e serviços, que não irão fazer diferença no uso do reprodutor de música portátil.
Há algumas marcas de PMPs (Portable Media Players) que optaram por não alterar o que é oferecido por padrão no Android (apps do Google e serviços do sistema operacional). Um exemplo disso é a Sony, que manteve o SO padrão, modificando somente seu app de reprodução de música nativo para permitir o bit perfect [1], deixando apps de terceiros de fora [2].
Como a fabricante japonesa ainda atualizou o sistema operacional do Android 12 para o Android 14 nos Walkman das séries A300 e ZX700, mas não fez otimizações, tornou-os ainda mais lentos. Felizmente, o usuário pode desabilitar manualmente alguns apps do Google e serviços/recursos do Android.
[1] Bit perfect é a transmissão do áudio sem influências do sistema operacional utilizado pelo dispositivo responsável pela reprodução das músicas.
[2] DAPs Sony Walkman com Android não tem modificação do sistema operacional para driblar o SRC e outros processos do sistema operacional que degradam o áudio. Desta forma, o bit perfect só será possível com o app de reprodução de música nativo da Sony e aplicativos que contam com drivers para este fim como, por exemplo, o USB Audio Player Pro (UAPP).
O SoC utilizado pelo DAP possui drivers específicos para gerenciar o funcionamento de seus componentes como, por exemplo, o display, os botões físicos, os sensores, o DAC, o modem Wi-Fi, o modem Bluetooth, dentre outros componentes. A versão do Android utilizada pelo Digital Audio Player precisa ter suporte para estes drivers.
Quando novas atualizações do Android são lançadas, geralmente elas têm compatibilidade com drivers mais recentes, podendo inviabilizar a atualização de determinado DAP para uma versão mais recente do sistema operacional. Considerando que Digital Audio Players já utilizam chipsets antigos, a chance de atualização de SO fica ainda menor.
Além disso, novos recursos do Android podem exigir maior poder de processamento do CPU e da GPU. Ao utilizar SoCs mais antigos, que é o caso dos DAPs Android, pode acabar inviabilizando a utilização de uma versão mais recente do sistema operacional. Daí a necessidade do fabricante de implementar otimizações a nível de sistema operacional para tornar a experiência de uso a melhor possível para os usuários.
Um desenvolvedor de aplicativos de streaming de música pode deixar de fornecer atualizações para uma determinada versão do Android por diversas razões. Geralmente, os motivos giram em torno dos seguintes aspectos:
• Baixo número de usuários do app em determinada versão do Android.
• Falta de suporte à certas APIs ou funcionalidades necessárias para a utilização de novos recursos implementados na versão mais recente do aplicativo.
• Aumento do risco de falhas de segurança.
• Uso do Widevine L1, uma tecnologia de gerenciamento de direitos digitais (DRM), exigindo um alto nível de segurança. O único que exige isso atualmente é o Nintendo Music e só é possível utilizá-lo nos DAPs com Android da Sony e da iBasso.
• Alto custo para desenvolvimento e teste devido à necessidade de compatibilidade com diversas versões do Android.
• Mudança de bibliotecas do app para continuar utilizando tecnologias modernas.
• Níveis mínimos de API (Target SDK) exigidos pela Play Store para novos aplicativos e suas atualizações.
• Reestruturação significativa do app com mudança considerável de sua arquitetura.
Target SDK é o nível de API para o qual o app foi testado e otimizado. Ele mostra à Play Store e a sistema operacional que o app sabe lidar com o comportamento desta versão.
Cada aplicativo tem seus motivos principais para exigir a versão mínima do Android que o dispositivo deve possuir para executar a atualização mais recente. Confira na tabela abaixo quais são as versões do Android exigidas por cada app de streaming de música.
Aplicativo | Versão mínima do Android exigida |
Amazon Music | Android 10.0 (Q) |
Apple Music | Android 7.0 (Nougat) |
Deezer | Android 6.0 (Marshmallow) |
Spotify | Android 7.0 (Nougat) |
Qobuz | Android 6.0 (Marshmallow) |
Tidal | Android 7.0 (Nougat) |
YouTube Music | Android 8.0 (Oreo) |
Não, há casos em que devido às exigências de níveis mínimos de API (Target SDK) da versão da Play Store instalada no DAP, aplicativos podem deixar de funcionar adequadamente. Além disso, dependendo do SoC utilizado pelo Digital Audio Player, também podem ocorrer problemas de compatibilidade.
Entre 2020 e 2021, houve relatos no Reddit e no fórum da Apple, de que o Apple Music não estava mais permitindo o login no FiiO M11. Em um FAQ, a fabricante do aparelho esclareceu que o problema foi devido ao chip Exynos 7872 da Samsung.
“Atualmente, o M11 pode instalar e usar o Apple Music normalmente, mas não consegue fazer login ao tentar entrar. Esse problema está relacionado à própria plataforma 7872, e já foi reportado à Samsung para processamento adicional.”
Recomendação de artigos relacionados ao tema:
• Por que utilizar um DAP (Digital Audio Player)?
• Como é o consumo de memória RAM em DAPs Android
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